quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Dois anos

Já era madrugada e o frio não se ausentava. Dividiram-se em dois carros e, mesmo sem saber o caminho, iriam lavá-las para casa. As ruas vazias faziam ecoar a música que tocava no carro como se ela nunca mais fosse esquecer cada nota, cada solo, cada palavra. Como já é de esperar em Curitiba, a garoa virou tempestade. Ela não sabia onde estava, o motorista e seus amigos visitavam a cidade e, no outro carro, queriam saber para onde todos estavam indo. É nessas horas que um GPS faz toda diferença. Dentro da cabeça dela o duelo entre angústia e saudade adiantada estava longe de terminar. Tenta esquecer que no outro dia não terá quem está do seu lado, mas a velocidade do para brisa contra o granizo a fazia olhar no relógio e ver que passava das duas da manhã. Como se não fosse aumentar ainda mais aquele sufoco ele encosta em sua mão e sem coragem de olhar ela só escuta: ‘ eu não queria encontrar o caminho certo, não queria ir embora ‘. Uma troca de olhares é seguida de um longo segundo de silêncio. A chuva então fica fina e constante como quem quer ficar. Cada esquina os aproximava à volta a rotina, as mesmas coisas evitáveis de forma inevitável. Como final de filme que não dá pra saber se terá continuação.
O Caminho já não era mais estranho. Ela então avisa que se um dia fossem o fazer de volta era melhor não andar na linha do transporte coletivo. Enfim chegaram, porém o destino era bem longe dali. Ela então sorri triste, um riso contido, mas sincero, seguido de um abraço e de algumas palavras. Mas palavras foram tantas as trocadas que não havia mais nada a ser dito, somente a ser sentido.
Ela então abre a porta do carro como quem estoura uma bolha de sabão e pisa no asfalto molhado como quem pisa pela primeira vez na areia salgada da praia. Era exatamente ali que andava em pequenos círculos ciente de que era a última chance de parar o tempo. Então parou. Desta vez o último abraço, aquele que não devia ter acontecido, mas que ela sabia que iria eternizar. Chuva gelada. Ele não queria que ela se molhasse. Não queria dizer adeus, então disse saudade sem causar dor, como se essa saudade fosse breve, como se fosse acabar ao nascer do sol. E se foi sem ir. E a deixou exatamente ali, mas sabe que no fundo estará sempre com ele.

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